A PAIXÃO

O GENUFLEXÓRIO E O ALTAR

 

"O mais prostituído dos seres
é o ser por excelência: Deus"
C. Baudelaire

 

Os anos 80 recuperam a figuração e o compromisso pop de reconstruir o universo artístico através de manipulação de lementos oriundos de comunicação de massa. Edmilson mergulha na temática popular, no universo "kitsch", nos mitos religiosos, nos prazeres do sexo. Não há espaço para distanciamentos, sutilezas, detalhes. A arte, aqui, é a orgia dos sentidos, e ela surge impulsiva, descarada, aos trapos e farrapos, nacos e pedaços. Ode e festa Dionísiaca. Convém, entretanto, não esquecer que a "exuberância pode ser analisada como a expressão de uma apreciável dimensão trágica incorporada. No amor, no desregramento dos sentidos, na expressão festiva, o gosto amargo da finitude está sempre presente. O barulhento Dionísio é ao mesmo tempo o Deus do amor e da morte"1
A série alegórica de Edmilson é, portanto, prazer e sofrimento, doçura e fel.
A infância vivida em Campos, as missas, ladainhas e procissões permitiram ao artista compreender que a transgressão é a inevitável conseqüência da fé: a religião traz em si o desejo da orgia, do carnaval. Por isso, as imagens adocicadas, o romantismo piegas, o afeto pequeno-burguês com suas lágrimas e sorrisos convencionais são dilacerados pela ação do artista, pela inserção de detalhes extraídos de revistas pornográficas que dão ao sexo a sua dimensão exata, real, o ato, o fato, o falo, o lato. Diante do "humano, demasiado humano", a arte instala-se como instrumento do amor e da morte, mensageiro Dionísio. "É que o mundo inteiro vivo tem a força de um inferno"2

"Se eu olhar a escuridão com uma lente, verei mais que a escuridão?"3 Ao drama barroco, Edmilson, contrapõe a alegoria e o rococó, para tal ele não se põe de joelhos nem se nega à cruz.
Prefere fazer da sabedoria popular umafonte de ensinamentos: transcede-a sem desprezá-la, transfigura, transpira.
A arte é a reconstrução do real, a recusa do determinado, o questionamento. Ela é excessiva, perdulária, onanista, libertina e libertária. Nos trabalhos mais recentes, Edmilson direciona-se para o repertório de imagens que anunciam e comemoram efemérides. Os cartões postais com mensagens e imagens de domínio público são colocadas a serviço de uma espécie de desafio e exercício de pintura realista empreendido pelo artista. Datas são descartáveis, assuntos finitos que se esgotam no âmbito de um pequeno grupo ou de uma curta vida. Refazendo essas imagens, inserindo-as num contexto diverso, subvertendo as suas funções, Edmilson parece, estranhamente, trasnformar o humano e a algazarra em silêncio e morte. Como enfrentar o abismo da perenidade? "Só se vive intensamente à custa do próprio eu"4
A produção de Edmilson sugere, à primeira vista, explosão de côr, desejo, paixão, alegria. "A alegria, porém , segundo Nitzsche, não deseja herdeiros nem filhos - a alegria quer ela própria, quer a eternidade, a repetição das mesmas coisas". O olhar mais sensível percebe que há uma ordem no caos, que há um desejo, uma ânsia que faz da vida e da morte elementos dependentes do ser. A arte é o instrumento que permite ao humano questionar o humano, que nos faz projetar. "Cada época imagina a que sucede", diz Benjamim.
No reino da sociedade pós-industrial, território da comunicação, as épocas nos atropelam e desencadeiam uma história não linear. Diante do dilema da arte - fogo e paixão - a ciência e o sensível são as reais estratégias do equilíbrio e da sobrevivência. Cabe ao artista, agente da ação, agir de acordo com a sua consciência, os seus princípios, a sua ética. Sem aspirar à criação de um epitáfio da arte e muito menos ao resgate de seu apanágio, cabe finalizar relenbrando Platão: "tudo isso ´pe louvável, desde que se conserve a sua resistência; uma vez relaxado esse esforço, têm-se a ruína".

1-M.Maffesoli in A Sombra de Dionísio
2-C. Lispector in A Paixão segundo G.H.
3-C. Lispector in A Paixão segundo G.H.
4 -
H. Hesse in O Lobo da Estepe



Marcus de Lontra Costa - Rio, maio, 1993.