Galeno / Na Pisada das Cores

TANTAS PAISAGENS, TANTAS BRASILIAS...

“Sou livre para o silêncio das formas e das cores”
Manoel de Barros

Brasília é, antes de tudo, uma ação artística, uma intervenção plástica no território da imensidão, ruído no silêncio espantado do planalto central brasileiro. Na concretização de um sonho, para lá se deslocaram diversas pessoas, fluxos migratórios de várias regiões que formaram um complexo e diversificado conjunto cultural.

Diferentemente de um postulado modernista conservador que concebe a cidade como um bloco compacto e voltado para um único direcionamento de futuro, Brasília acabou por valorizar a diversidade e a tensão das idéias conflitantes como elemento formador de sua personalidade. E Galeno é o artista síntese dessa complexidade de olhares, de sentimentos e de idéias que embasam a pesquisa estética de nossa capital.

São várias as Brasílias que a obra de Galeno apresenta. Seus trabalhos se constroem através de mecanismos que se identificam com a cidade. A Brasília planejada, a ocupação do território a ser definido através da linha identifica-se com a ação do artista. Sua produção se estrutura através do método, da síntese, de uma deliberada organização gráfica do espaço, de uma clara definição de formas ou volumes. Galeno é, de início, o construtor e os seus alicerces definem-se por uma evidente idéia de projeto. 






Sobre essa estrutura definidora e determinada pela clareza o artista povoa o território com formas poéticas e repletas de encantamento e elegância. A Brasília de arquitetura surpreendente, repleta de simbologias que hoje ocupam o panteão icônico nacional, se faz presente nas formas criadas pelo artista. A partir da simplicidade de elementos que se identificam com o real, com o utilitário, com formas extraídas da vida cotidiana o artista elabora uma poética particular que espanta e seduz o olhar.

Mas Brasília não é somente fruto da ação humana. A Natureza nos presenteia com um cenário celeste espetacular, repleto de pincelas coloridas cheias de luz. Essa cor se faz presente nas obras de Galeno; a cor aqui é substantiva, elemento integrador de sua paisagem artística. Ela parece brotar do interior das pinturas, seca e contundente, como se a epiderme pictórica fosse o espelho de um organismo intrinsecamente colorido.


Galeno transcende a verdade modernista; ele é, a uma vez, a sofisticação e a simplicidade, a interseção entre o popular e o erudito, vozes da periferia, do entorno, dos brasilienses das cidades satélites, da beleza oriunda das mãos e dos sentimentos de homens trabalhadores que edificam cotidianamente a dignidade do povo do nosso país. Galeno é a voz - e o espelho - da Brasília real, humana, que resgata e alimenta o desejo de seus fundadores de construir uma cidade que seja o reflexo de uma sociedade mais justa e mais fraterna.

O artista é o construtor de pontes. Ao revelar nossa infância, ele projeta o futuro; o seu lugar é apenas um ponto no qual as suas referências permitem a construção de novas geografias. Galeno, em silêncio, constrói a sua história, garimpeiro das formas e espaços repletos de luz e de encantamento.


Outras imagens abaixo:

 



 

Texto:
Marcus de Lontra Costa
Rio/Brasília, abril 2010

Fotografia:
Edgar Cesar


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