MARIO AZEVEDO


Foto: Ana Baravelli

Abertura: às 20:00 horas do dia 08 de abril de 2003

Exposição até: 26 de abril de 2003

Horário de Funcionamento:
segunda a sexta-feira: das 11:00 às 21:00 horas
sábados: das 11:00 às 18:00 horas

A Galeria Anna Maria Niemeyer estará apresentando de 08 a 26 de abril de 2003 uma nova série de trabalhos recentes de Mário Azevedo (papéis em relevos sobre pasta de fibras coloridas - nos formatos 140x140 cm e 50x70 cm) e sobre eles o artista escreve:

Serão mostradas na Galeria Anna Maria Niemeyer entre sete e oito trabalhos de formato maior (140x140 cm), e três ou quatro menores (50x70 cm) manufacturados com fibras de bananeira, sisal e cana, tingidas quimicaSerão mostradas na Galeria Anna Maria Niemeyer entre sete e oito trabalhos de formato maior (140x140 cm), e três ou quatro menores (50x70 cm) manufacturados com fibras de bananeira, sisal e cana, tingidas quimicamente. Foram fabricadas com todos os cuidados relacionados aos itens de conservação ideal (ph equilibrado, adição de fungicidas neutros, entelamento com algodão, etc.) e produzidas emtre maio e outubro de 2002, na Oficina de Papel Cipó, em Jaboticatubas, MG.

A série que será mostrada nesta exposição é bem recente, mas resulta de um processo de trabalho iniciado há um bom tempo (no início dos anos 80, mais precisamente)., quando conheci os processos de fabricação artesanal de papéis, com Marlene Trindade, ainda na Escola de Belas Artes da UFMG. Como o meu trabalho se desenvolve de uma maneira, digamos, circular, estas obras se definem depois de vários processos de pesquisa, de trabalhos e resultados; pesquisa das matérias, das cores, das imagens finais e sua configuração, inclusive; de conviver com eles e os colocar em circulação.
No início, só o ato de fabricar (manufaturar) as simples folhas de papel (tornando-se apenas suporte para outros trabalhos) já me bastava; com a experimentação e o andamento do próprio trabalho ( e das
n interferências produzidas sobre elas) foi preciso mais. (Penso que, de modo geral, a questão da artesania do papel, infelizmente, vem se banalizando desde então.) Queria que o papel fosse mais (mais aparente, mais presente, com maior caráter material talvez) e, assim, as folhas de papel começaram a tomar corpo, as interferências foram ganhando relevo, a cor se adensando; as matérias precisaram de mais requinte em sua elaboração, as cores transitaram entre opacidades e transparências e o desenho foi-se misturando a uma pintura, impondo às imagens uma maior simplicidade (com mais poder, digamos) e, porque não, mais responsabilidade (em um processo de anos). Concebo o trabalho enquanto faço, pois é preciso que o trabalho também pense em si mesmo.
Da última vez que trabalhei (e expus) uma série de Papéis (Salvador/BA, abril 1997; Belo Horizonte-MG, outubro 1999) até a atual série, alguns dados se modificaram: agora as peças estão bem mais leves e finas, o esgrafitto produzido pelas mãos e dedos está mais reduzido (com conjugações baseadas apenas em linhas contínuas, tracejados, pontos e marcas das minhas próprias mãos), as cores não vêm de uma pintura posterior à secagem da massa e sim de uma tintura química na pasta ainda líquida (ou de uma superposição de diferentes camadas de pastas), reafirmando uma concepção monocromática e as formas-suportecomeçaram a obter mais autonomia, com recortes irrregulares e vazados. Acredito que evoluíram na mesma direção para a qual apontam todas as minhas (diversas) experimentações (...conhecimento/prática...) plásticas e que resultam mesmo de um apanhado de todas elas: dos desenhos mais secos aos mais densos de informações visuais, agregados às colagens, testando possíveis suportes; das têmperas mais pesadas sobre madeira ou tecido ao amadurecimento da minha prática com a aquarela clássica; das minhas primeira tentativas de estabelecer um raciocínio, de fato, espacial, na concepção de objetos e volumes ou do trato mais livre com a gravura (no amplo sentido do termo), com as matrizes de impressão e suas n possibilidades, com resultados tão ricos e diversos.

 

Mario Azevedo, janeiro de 2003.

 

Mário Azevedo
O Processo

Sobre seu trabalho escreve Walter Sebastião (crítico de arte mineiro):


Fotos:

Evandro Fiuza/Isabel Florêncio

Estrelas e Víscera

1.Há um texto de Walter Benjamim em que ele aventa duas hipóteses curiosas. A primeira, que a leitura é anterior à letra: afinal, como ele aponta, anterior à leitura de textos é a leitura de estrelas e vísceras. A segunda, que todas estas antigas práticas teriam migrado para a leitura alfabética, mas perdendo, na viagem, os antigos poderes mágicos dos signos. Observando livremente as imagens de Mário Azevedo pode-se dizer que, de alguma forma, toda a sua obra evoca especulações do escritor. Até porque, ao longo de sua carreira, o artista criou trabalhos, que, insistentemente, investigaram mais o aparato signo do que o que ele representa ou seusentido (e nestas peças pode-se detectar uma explícita obstrução do sentido para que o desenho do signo ganhe o primeiro plano).

2. Tudo, nos trabalhos de Azevedo, são sinais, marcas, pré-história das letras, que celebram a si mesmos mais do que a afirmação de um hipotético texto sobre alguma coisa (ainda que um desejo de narratividade não seja estranho ao artista, mas ele nunca se consuma). Emblemas do autor? Cores, arquiteturas, enumerações, astros, tramas, marcas, formas abstratas que se insinuam como sinais, etc. Festivos no seu polido distanciamento, mas, de fato anotando um motivo dramático, tratado de forma elíptica: a constatação da fragilidade do signo como instrumento para domar e entender forças cósmicas, incluindo aí, o abissal da condição humana. Mas o destino do artista, ele parece repetir, é perseguir a utopia de capturar o cosmos da terra.

3. Nesta mostra, talvez mais que em outros momentos, estes motivos estejam particularmente evidentes. Até pela metódica depuração que Mário vem impondo à sua linguagem. Chama a atenção neste conjunto de obras o que poderia se considerar um ensaio sobre a cena do signo, em especial sobre o signo arte. Temos a evocação, explícita, do gesto que crava o ponto que, por sua vez, traz a linha que se torna sinal (ou um tipo de sinal), que reluta em virar código sobre a matéria. Os trabalhos especificam detalhes da ação: trata-se do embate corpo e mundo, atravessado pelo devaneio e a oscilação (e as atenções concedidas a essa indicam um quase descaso pelo produto final), tanto quanto por intenções de registro, utilitárias. Ou ainda, só o que sobrou deste embate fundador: rastros, dispersão, heterogeneidade, pulsações e batimentos de humanos desejos, difíceis de serem conceituados.

4. Metafísica? Um pouco, certamente. Mas também provocação para o pensamento eo deleite. Com bom humor pode-se dizer que Mário Azevedo conversa com Walter Benjamim, esclarecendo brancos onipresentes em seu texto. Para o mineiro, e talvez para o alemão, o artista (especialemnte ligado às artes visuais) é alguém que inventa e reinventa, continuamente, estratégias capazes de liberar e libertar uma memória (história?) apagada, de certa forma recalcada pelas letras ou pelotexto convencional. O objetivo, declarado ou não, é restituir os poderes, a eficácia simbólica, de marcas, sinais etc., tornados iamgens sintéticas de todo. Velhas crenças sobre correspondências entre o micro e o macro estariam em jogo. Mas também há a evidência que os signos, até em seu aparente anonimato e na sua desconcertante lógica poética, são a essência do ser humano, suas vísceras e estrelas.

 

 

Walter Sebastião, fevereiro de 2003

 

Local
GALERIA ANNA MARIA NIEMEYER
www.annamarianiemeyer.com.br

Rua Marques de São Vicente, 52 loja 205
Shopping da Gávea
22459-900 Rio de Janeiro RJ

Maiores informações

Tel: (21) 22399144
Leonor (das 15:00 às 21:00h -segunda à sexta-feira)
Fax: (21) 22592082

e-mail: amn@annamarianiemeyer.com.br