DEPOIMENTO
ITALO CAMPOFIORITO

 

OSCAR NIEMEYER

O professor Oscar Niemeyer é um dos nomes mais importantes no campo da arquitetura contemporânea de todo o mundo, no século XX. Nasceu no Rio de Janeiro em 15 de dezembro de 1907 e formou-se arquiteto no Curso de Arquitetura e Urbanismo da então Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro. No início de sua carreira foi um dos responsáveis pelo projeto definitivo do Ministério da Educação no Rio de Janeiro em desenvolvimento dos croquis originais de Le Corbosier (1936-1945). Foi o autor, juntamente com o arquiteto Lúcio Costa, do pavilhão brasileiro para a Feira Internacional de Nova York (1939). Em 1942, projetou o conjunto da Pampulha (Igreja, Cassino e Baile Popular) em Belo Horizonte, MG. A concepção livre, de espírito barroco, reproduzida na publicação Brazil Builds (ed. Moma, NY, 1943) e divulgada imediatamente na Europa e nos EUA, abriu espaço para seu trabalho em vários estudos e livros de História da Arquitetura, como por exemplo, em An Outline of European Architeture de N. Peusner, bem como no Dicionário Penguin de Arquitetura, do mesmo autor, onde a crítica aos "mannerisms" de Niemeyer vem acompanhada do reconhecimento da extrema ousadia e inventividade das formas e estruturas de concreto armado.
Na mesma linha de apreciação, consideraram famosos autores que a arquitetura não-racionalista de Le Corbusier (a capela de Ronchamps, por exemplo) teria sido influenciada por essa nova arquitetura brasileira, liderada por Oscar Niemeyer. Sua participação no projeto da sede da ONU, em Nova York, é notória. Outras edificações de Niemeyer internacionalmente citadas são: a sede da Editora Mondadori (Milão-1975); a Universidade de Constantine (Argélia); a sede do Partido Comunista Francês (Paris); sede do Jornal L’Humanité (Paris-1987), a Praça e a Casa de Cultura do Havre (França-1981), a sede do Grupo FATA (Turim-1976), a Sede Sindical de Bobigny (França-1972), etc., além de inúmeros projetos que aguardam construção na França ou na África. No Brasil, Niemeyer é o autor da catedral (1958-71) e dos palácios governamentais de residência e despacho (1960) na cidade de Brasília, bem como o conjunto Ibirapuera (1951), onde a Bienal de São Paulo ocupa um dos edifícios, além do recente conjunto cultural Memorial da América Latina (1989) também em São Paulo e do Museu de Arte Contemporânea de Niterói (1996).
Centenas (cerca de 400) projetos seus destinam-se a residências (como a sua própria, na Estrada das Canoas, Rio de Janeiro), fábricas, estádios esportivos, hospitais, unidades escolares e universitárias, entre as quais são famosos os primeiros prédios da Universidade de Brasília, sobretudo o Instituto Central de Ciências (1963-65). Os textos anexos, de duas publicações importantes (World Architeture de Londres, e Ufficiostile, de Milão) dão impressionante e satisfatória visão da vasta e inovadora obra artística e cultural, sempre animada de espírito humanista e crença num futuro mais justo para a população do planeta.
"A importância excepcional que se deve atribuir ao arquiteto Oscar Niemeyer no cenário mundial, decorre de razões artísticas e históricas - na verdade, comuns a toda trajetória de uma vasta e diversificada obra. Desde o seu primeiro projeto exclusivamente pessoal - o Conjunto da Pampulha (1942) - ao apresentar as formas inovadoras e surpreendentes das coberturas onduladas (Igreja) e lajes recortadas em curvas livres (Baile e Cassino), além das mais inesperadas articulações espaciais, desde então, as intenções plásticas de Niemeyer foram sempre explícitas. A liberdade de concepção formal, e o abandono de qualquer condicionamento racionalista ou funcionalista, como se dizia nas primeiras décadas do século XX, foram diretrizes de criação que desenvolveu durante toda a sua vida. Do ponto de vista histórico essa nova visão anunciava as limitações e o esgotamento da primeira arquitetura moderna, tão marcada pela ilusão ou crença utópica em soluções industriais (de razão puramente tecnológica) para problemas de moradia, trabalho e lazer das populações e países mais pobres.
A criação constante de novas formas arquitetônicas - em colunas, fachadas, coberturas, arcabouços estruturais ou vãos espaciais - marcou crescentemente o repertório de Niemeyer. Configurou-se uma linguagem pessoal inconfundível, cuja sintaxe foi estruturada pela leveza arquitetônica, pelos grandes vãos e pela forma-estrutura, onde se integram estabilidade e estética. Em São Paulo e no Rio de Janeiro (anos 50), em Brasília (anos 60), na Argélia, na França e na Itália (anos 70 e 80) bem como em seus trabalhos recentes, essa criação singular, firmada desde 1942, avulta no conjunto da segunda fase da arquitetura contemporânea internacional, a partir dos anos 50: Le Corbusier, Mies Van der Rohe e Alvar Aalto, cada um deles, como os mais jovens que se seguiram na Europa, na América e na Ásia, com a sua contribuição poética peculiar."

Ítalo Campofiorito