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Desvio para o infinito

 

 

Quem não teria medo do preto? Quem não sentiria, diante da tela negra, um estremecimento qualquer, uma certa asfixia, como o presságio de que algo não mais acontecerá? Afinal, em uma cultura que concedeu à luz o prestígio das revelações e das clarividências, como não ver no preto senão o vazio, a profundidade insondável, o próprio nada? Onde o branco era plenitude de luz e cor, o preto era o absoluto contrário: ausência, luto, silêncio.

Evocar o nada, fazer a pintura retornar ao deserto de si mesma foi a aventura de Malevich. O quadrado preto sobre fundo branco decretava o radical exílio da realidade objetiva da vida quotidiana: nem imagens, nem cores, mas o grau zero da linguagem. Era um estranhamento e um recomeço: um vazio provisório para a emergência do sentimento puro sobre o qual um novo mundo se construiria. E se o nada de Malevich encerrava promessas e utopias, os quadros negros de Ad Reinhardt eram crise e mera constatação: "o último quadro que se pode pintar".

Nas telas negras ou brancas de Rosa Oliveira, no entanto, não há nostalgias pela origem ou pelo fim perdidos. Não há suspensões ou a ameaça dos dilaceramentos. Tampouco há relaxamentos: são tensões premeditadas, rigores calculados, exatidão geométrica. Necessitam uma circunspecção quase estranha ao universo contemporâneo da imagem e de seus espetáculos. É quase silêncio, quase murmúrio, quase som, quase tom.

A artista parece se colocar uma tarefa: redimir o preto das dores ancestrais, das submissões das sombras. O negro não desfere sobre a luz seu espectro, mas quebra a cegueira dos sóis, revela as possibilidades dos crepúsculos. Não há compaixão neste resgate, não há melancolia da ausência, mas precisão e escolha: seus pretos e seus brancos recusam ser os extremos finalistas e primordiais da gama cromática e das simbologias cosmogônicas. Impregnam-se das matizes sutis que povoam o entre: são inúmeros pretos, incontáveis brancos.

Nem a aurora, nem o ocaso da cor, da arte ou do mundo, mas o inesgotável das diferenciações ínfimas, das pequenas percepções, das pequenas incitações. Pois é ali, na abertura ilimitada desse entre, que se alojam os desvios. Desvios que não são dados nas dobras fáceis, nas linhas hesitantes, mas no exercício solitário de sua construção.

No lugar do absoluto, a pluralidade dos acontecimentos pictóricos: o desvio para o infinito de seus ensaios.

 

Marisa Flórido Cesar

maio de 2003


Texto: Marisa Florido Cesar © Galeria Anna Maria Niemeyer 2003–exposição Brise-Soleil, Rosa Oliveira