Entre-Rosas
Inscrever no suporte as pequenas “sensações
coloridas”, insistia Cézanne. Não os grandes temas, mas as percepções ínfimas,
eclipsadas pelos hábitos do olhar. Eis o pacto implícito: que o pintor libere a
visão de seus preconceitos, que o espectador acolha esse estranhamento
inesperado. Por isso, "O que é um quadro?" — interrogação que obsedou
Cézanne — permanece sem resposta: a experiência da arte é essa força que nos arranca
do solo estável do reconhecimento e da designação.
Diante das telas de Rosa Oliveira,
recordo-me das sensações coloridas perseguidas por Cézanne. Não são as linhas
ou as cores que demandam ao olhar reter-se sobre as superfícies, mas os timbres,
os matizes, o infinito da ínfima diferença, no sentido que lhes dava Lyotard[1]:
não a forma, mas a “matéria imaterial”; não o “recorte exato” e identificável,
mas a indeterminação dos entretons.
As faixas verticais em prata, repetidas com
rigor e precisão construtiva sobre as telas, aludem à paisagem urbana. Mas se a
sensibilidade anestesia-se na cena seriada e metálica da cidade, que a pintura
nos provoque um deslocamento dessa rotina. Que nos faça olhar outra vez para
que, na superfície turva dessa incógnita que é um quadro, se revele a mínima -
contudo ilimitada – diferenciação. E o que era prata ganha nuanças, perde a
pureza que antigos simbolismos encerram: metal precioso associado à lua, à
feminilidade e à distância, a prata é a intangibilidade que se deixa entrever
fulgurante na noite, rasgando-a com suas cintilações discretas. Aos prateados mesclam-se outros timbres:
vibram os entretons, convertem-se em entre-azuis, entre-verdes, entre-cinzas, oferecem-se
ao calor da chama e assumem-se entre-lilases. E os prateados distantes,
abrindo-se a outras cintilações, vão-nos aquecendo nos entre-rosas e oliveiras.
Marisa
Flórido Cesar
Julho de
2007
[1] Lyotard, Jean-François. Após o sublime,
estado de estética. In: O inumano/
Considerações sobre o tempo. Lisboa: Editorial Estampa, p.144.